sexta-feira, 24 de outubro de 2014

MATÉRIA DE IMPEACHMENT

DILMA E LULA SABIAM DA ROUBALHEIRA NA PETROBRAS, DIZ YOUSSEF. SE FOR VERDADE, É MATÉRIA DE IMPEACHMENT SE ELA FOR REELEITA. JÁ SERIA AGORA, MAS NÃO HÁ TEMPO

Aquilo que os petistas tanto temiam desde o começo aconteceu: a operação Lava Jato bateu em Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, e em Dilma Roussef, Eles sabiam da roubalheira vigente na Petrobras. É o que o doleiro Alberto Youssef assegurou à Polícia Federal e ao Ministério Público no curso do processo de delação premiada. Está na capa da VEJA, que começa a circular daqui a pouco. Eis a imagem. Volto em seguida.
CAPA VEJA SABIA DE TUDO
Eu poderia engatar aqui aquela máxima de Carlos Lacerda sobre Getúlio Vargas, só para excitar a imaginação de Lula, trocando a personagem. Ficaria assim: “A Sra. Dilma Rousseff não deve ser eleita. Eleita não deve tomar posse. Empossada, devemos recorrer à revolução para impedi-la de governar.”
Mas aqueles eram tempos em que as pessoas prezavam muito pouco as instituições, a exemplo de certos partidos que estão por aí. Eu não! Eu prezo a lei e a ordem. Eu prezo a Constituição do meu país. Eu prezo os Poderes constituídos.
Se as acusações de Youssef se confirmarem, é claro que Dilma Rousseff tem de ser impedida de governar caso venha a ser reeleita, mas em razão de um processo de impeachment, regulado pela Lei 1.079, que estabelece:
Art. 2º Os crimes definidos nesta lei, ainda quando simplesmente tentados, são passíveis da pena de perda do cargo, com inabilitação, até cinco anos, para o exercício de qualquer função pública, imposta pelo Senado Federal nos processos contra o Presidente da República ou Ministros de Estado, contra os Ministros do Supremo Tribunal Federal ou contra o Procurador Geral da República.
E o texto legal estabelece os crimes que resultam em perda de mandato. Entre eles, estão:
- atuar contra a guarda e o legal emprego dos dinheiros públicos;
- não tornar efetiva a responsabilidade dos seus subordinados, quando manifesta em delitos funcionais ou na prática de atos contrários à Constituição;
- proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo;
Se é como diz Youssef — e lembro que ele está sob delação premiada; logo, se mentir, pode se complicar muito — , pode-se afirmar, de saída, que Dilma cometeu, quando menos, essas três infrações, sem prejuízo de outras.
Trecho do diálogo de Youssef com o juiz:
— O Planalto sabia de tudo!— Mas quem no Planalto?, perguntou o delegado.— Lula e Dilma, respondeu o doleiro.
Se Dilma for reeleita e se for verdade o que diz o doleiro, DEVEMOS RECORRER ÀS LEIS DA DEMOCRACIA — não a revoluções e a golpes — para impedir que governe. Afinal, nós estamos em 2014, não em 1954.
Por Reinaldo Azevedo

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ministério divulga territórios rurais que receberão núcleos de desenvolvimento

21 / 10 / 2014  CLIPPING
http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2014/10/21/109777-ministerio-divulga-territorios-rurais-que-receberao-nucleos-de-desenvolvimento.html

O Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgou na segunda-feira (20) que 136 territórios rurais receberão Núcleos de Extensão em Desenvolvimento Territorial (Nedets) , resultado de parceria entre o ministério e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), firmada no primeiro semestre. Dos mais de 200 projetos apresentados, 86 foram aprovados e serão implementados em 2015 e 2016.

Estes núcleos vão assessorar os colegiados territoriais na produção de planejamentos de desenvolvimento do território e trarão ainda um trabalho específico para o empoderamento (ganho de poder) das mulheres das zonas rurais. “[Os Nedets] vão fazer uma assessoria técnica, uma assessoria na elaboração de projetos, no acompanhamento, no desenvolvimento e na elaboração do planejamento da gestão e da participação social desses 136 territórios que funcionam por meio de colegiados”, explicou o ministro Laudemir Müller.

O orçamento para os 86 projetos aprovados será R$46 milhões para 2015 e 2016. Vão trabalhar no núcleo um professor doutor de uma instituição de ensino superior pública, que é quem apresenta o projeto e será o coordenador, dois assessores territoriais, um profissional para as ações de apoio à participação das mulheres no desenvolvimento territorial e um estudante, geralmente de mestrado ou doutorado. Todos receberão bolsa de estudos.

Segundo o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, os profissionais podem ser de diversas áreas, vai depender das especificidades do campus universitário de origem do professor que apresentou o projeto de atuação. “Dentro de cada território você tem especificidades que só o conhecimento vai poder identificar, articular, de forma a devolver esse conhecimento em forma de políticas em procedimentos, em organização que vão ajudar que cada território possa se desenvolver adequadamente”, explicou. (Fonte: Agência Brasil)

Clausura acadêmica

Por que o Brasil jamais ganhou um Prêmio Nobel? Por que a nossa universidade mais bem colocada num ranking mundial, a USP, ocupa um inquietante 226º lugar?

Por Evaldo Vilela (*)

O Globo - 18/10/2014

Hora de comemorar. A Medalha Fields de Matemática, conferida ao brasileiro Artur Ávila Cordeiro de Melo, equivalente ao Prêmio Nobel, é um feito histórico. Hora também de formular perguntas que não querem calar. Por que o Brasil jamais ganhou um Prêmio Nobel? Por que a nossa universidade mais bem colocada num ranking mundial (Times Higher Education), a USP, ocupa um inquietante 226º lugar? Por que a academia brasileira não está no debate nacional e é ignorada na agenda dos candidatos?

Talvez porque a universidade seja percebida, no Brasil, como fábrica de diplomas, mero trampolim profissional. Na sociedade do conhecimento, outros países a veem como plataforma para o desenvolvimento. Ranquear o trabalho científico não é algo simples. E nem sempre científico, stricto sensu. Mas os números do Nobel nos sugerem que há algo no ar: EUA, 334; Alemanha, 103; Canadá, 21; Áustria, 19; Argentina, cinco. Um certo Ryberg Niels colocou as Ilhas Fahroé na lista, com um Nobel de Medicina. Em outras Copas, o Brasil tem tomado severas goleadas. Nesta, sequer participa.

Nos EUA, para ir à Lua, a visão estratégica reestruturou o ensino da Matemática, alterando a lógica e o conteúdo da formação dos engenheiros. Na Ásia, foram implantados ambientes de inovação em universidades e centros de pesquisa, como parques tecnológicos, incubadoras, aceleradoras de empresas. Aproximaram o mundo da pesquisa do mundo dos negócios. O foco: a solução de problemas que impactam a qualidade de vida das pessoas, geram riquezas, novos empregos.

Receita que o Brasil tenta seguir, mas peca na quantidade, na velocidade das ações, no financiamento. Por não compreender a nova economia? Uma pena! Pois não só reúne condições como precisa reter seus cérebros: o jovem ganhador da Medalha Fields, por exemplo, trabalha hoje para a França. No passado, conseguimos reter Jacob Palis, ganhador do Prêmio Balzan, e atual presidente Academia Brasileira de Ciências.

Mas, se os brasileiros não estão falando sobre a universidade, é porque não conseguem perceber de forma clara como a instituição afeta — ou poderia afetar — as suas vidas, além do diploma! Nós, os pesquisadores, não participamos desse “diálogo” de forma direta, cognitiva, comparativa. Reservamos nossas considerações para círculos fechados, e em linguagem técnica, complexa.

A Ciência precisa entrar na agenda da sociedade. E a sociedade brasileira precisa urgentemente entrar na agenda da Ciência. Numa era de rupturas e transformações, o cientista não pode dar-se ao luxo da clausura. Urgem políticas públicas em favor do aprendizado, do despertar de novos talentos, de jovens empreendedores.

Eles estão aí e não são poucos. Buscam projetos profissionais, mas também buscam causas, apoiadas em anseios planetários por um mundo melhor. Nesse contexto, criamos com o Instituto Fórum do Futuro, presidido pelo ex-ministro, ganhador do World Food Prize, Alysson Paulinelli, o Prêmio Novos Talentos Para a Agricultura Sustentável, que visa aproximar jovens urbanos das áreas de tecnologia do desafio de aumentar a produção de alimentos e ao mesmo tempo intensificar a sustentabilidade. Formar cientistas, sim. Mas, também, formar cidadãos focados na solução de problemas.

Inovar é correr riscos. O modelo atual de financiamento da pesquisa estimula o pesquisador a optar pelo simples e seguro, na percepção burocrática dos órgãos de controle. Urge aprovar o Código Nacional de Ciência e Tecnologia, em substituição à Lei 8.666 para a pesquisa.

Ou o Brasil determina o próprio futuro ou está condenado à condição de usuário de pacotes de tecnologia importados. Cabe aos cientistas decodificar significados e apontar consequências. A sociedade sabe que lideramos o mercado mundial de frango. Mas não sabe que as avós (a matriz tecnológica) dos nossos pintinhos moram na Inglaterra, na Holanda, nos EUA.

(*) Evaldo Vilela é membro da Academia Brasileira de Ciências e do Fórum do Futuro.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/clausura-academica-14285256#ixzz3GgtuylLg

Ângelo Machado lança jingle pela vitória de Aécio Neves

Entomólogo, ambientalista e autor de livros infantis, o mineiro Ângelo Machado compôs uma marchinha para promover a candidatura de Aécio Neves, da Coligação Muda Brasil, à Presidência da República.

O Professor Ângelo Machado é decano da Faculdade de Medicina da UFMG-Universidade Federal de Minas Gerais, um médico, cientista e professor extraordinário que inspirou e inspira inúmeras gerações de médicos e biólogos que tivemos o privilégio de ser seus alunos. O Professor Angelo Machado honra a tradição de excelência, seriedade e ética da UFMG. O apoio dele à candidatura do senador Aécio Neves para a Presidência da República é de grande significado. Ângelo Machado é conhecido e respeitado como uma das pessoas mais comprometidas com a educação e a ciência de qualidade em todos os níveis, e a conservação da natureza. Um forte abraço ao Mestre, aqui da Alemanha!


Vamos com Aécio!
(Letra de Ângelo Machado, arranjo de Geraldo Alvarenga)

Vamo’ embora minha gente
Tá na hora de votar
Nós estamos com Aécio,
E o Aécio vai ganhar

Vai acabar a bandalheira
E o Brasil vai melhorar
Com a vitória do Aécio
Todo mundo vai ganhar

Confira em:

‘O Brasil é muito mais do que o PSDB contra o PT’

Por Mirela Tavares, 19 de outubro de 2014

A frase do doutor em Ciência Política Rolf Rauschenbach exprime uma de suas impressões sobre o clima da eleição presidencial no Brasil, em que o segundo turno será no próximo dia 26, entre o candidato do PSDB, Aécio Neves, e a presidente do país, candidata do PT, Dilma Rousseff.

Rauschenbach, que morou no Brasil, também faz um comparativo sobre os modelos de campanhas brasileiras e suíças, que se diferenciam principalmente pela veiculação de publicidade no rádio e na TV. Para ele, o uso dos veículos audiovisuais no modelo brasileiro, que são proibidos nas campanhas suíças, conseguem apelar mais facilmente para as emoções dos cidadãos, abusando de uma maneira excessiva com mecanismos psicológicos, esquecendo que o processo democrático também deve ser um processo de iluminação e de amadurecimento emocional e intelectual dos cidadãos.

Diante do tamanho e da complexidade dos problemas brasileiros, Rauschenbach salienta preocupação com a crença generalizada no Brasil de que o presidente pode resolver todos os problemas do país. Ele compara ainda as constituições dos dois países, mostrando as similaridades teóricas – até mesmo a Constituição suíça como uma das inspirações para elaboração da brasileira. Porém, para ele, enquanto os conceitos básicos são os mesmos, a concretização é bem distinta. "E a meu ver, no caso brasileiro, com falhas importantes", afirma Rauschenbach, que detalha o seu pensamento na entrevista a seguir.

swissinfo.ch: Qual a sua percepção sobre o atual cenário político do Brasil, com Dilma Rousseff e Aécio Neves disputando o segundo turno para a presidência da República?

Rolf Rauschenbach: Existem duas interpretações desse cenário: ou os candidatos do PSDB e do PT são realmente os melhores representantes e, por isso, são aqueles que podem e devem disputar a presidência no segundo turno, ou as estruturas institucionais e socioeconômicas do Brasil perpetuam principalmente aqueles que já estão no poder, independentemente das suas qualidades. Na realidade, deve ser uma mistura dos dois fatores, já que são interdependentes. Mas me parece que, no Brasil, o segundo tem cada vez mais peso. Neste contexto, vale lembrar que em eleições majoritárias como as presidenciais, todas as forças convergem para o centro, já que é ali onde se ganha mais facilmente a maioria. As retóricas antagonistas entre o PSDB e o PT procuram estabelecer diferenças programáticas, que na realidade acabam sendo bem menores. Considerando o fato de o  Brasil ser um país enorme e complexo, me parece estranho achar que existem somente duas propostas – muito parecidas – sobre como fazer o Brasil progredir. Por isso, tive bastante simpatia pela Marina Silva e alguns outros chamados candidatos nanicos, até porque tenho certeza de que o Brasil é muito mais do que PSDB contra PT.

swissinfo.ch: O que achou das campanhas?

RR.: Em eleições, por definição, os candidatos são vistos antes das ideias e dos projetos. Por isso, as campanhas tendem a ser mais emotivas, mais pessoais do que as em torno de questões específicas, como é o caso em um referendo ou um plebiscito. No Brasil, essa tendência está ainda fortalecida pelo fato de que a maior parte da comunicação pública é transmitida pela TV e pelo rádio. Veículos audiovisuais conseguem apelar mais facilmente para as emoções dos cidadãos do que debates travados nas mídias impressas.

A meu ver, as campanhas atuais abusam de uma maneira excessiva destes mecanismos psicológicos. Afinal, não podemos esquecer que o processo democrático sempre deveria ser também um processo de iluminação, de amadurecimento emocional e intelectual dos cidadãos. Vejo poucas contribuições nessa direção, mas muito bate-boca vazio de ideias construtivas.

swissinfo.ch: O que se pode esperar com a vitória de Dilma ou de Aécio do ponto de vista dos programas de governo apresentados e das alianças que estabeleceram?

RR.: Pelo que vi, são poucas as promessas concretas de ambos os candidatos, e no fundo não acho que haverá diferenças programáticas substanciais entre um presidente Aécio ou uma presidente Dilma. Do lado do Aécio, seria suicídio mexer fundamentalmente com os programas sociais expandidos pelo PT. Da mesma forma, seria suicídio da Dilma não tomar medidas sérias a respeito da inflação, dívida pública, Petrobras etc. Porém, esperaria mais dinamismo do Aécio do que da Dilma. Ela e o PT me parecem intelectualmente esgotados. O PT precisa se renovar em termos de ideias e de pessoas. Conseguiria isso mais facilmente e com mais benefícios para o Brasil se estivesse na oposição.

swissinfo.ch: O que esperar da campanha neste segundo turno?

RR.: São semanas longas. Os apoiadores da Dilma podem atacar de uma maneira extremamente violenta o Aécio como eles o fizeram com Marina. No outro lado, existem várias brechas pelas quais o Aécio pode criticar e fragilizar a candidatura da Dilma. Ao meu ver, o jogo ainda está aberto. Acharia importante que os dois candidatos tentassem moderar os seus apoiadores para não esquentar mais este clima pesado.

swissinfo.ch: Antes da Copa do Mundo, o Brasil foi tomado por manifestações populares, que o senhor chegou a declarar que não sabia como não tinham acontecido antes, diante de tantos problemas do país. Como o senhor percebe esta tolerância e passividade da população em relação a má gestão dos governos em suas diversas instâncias?

RR.: É verdade. Do meu “ponto de vista suíço”, foi difícil entender a passividade da população brasileira. As manifestações de 2013 faziam muito sentido para mim. Mas deveríamos evitar uma interpretação romântica demasiada desses acontecimentos: de uma população de 200 milhões de habitantes, 1 milhão foi à rua. Nas pesquisas, o apoio aos manifestantes foi grande, mas já na época foi difícil tirar conclusões concretas sobre elas. Do “ponto de vista brasileiro”, a passividade é um senso bastante comum: há uma parte enorme da população, que todo dia tem que lutar pela sobrevivência e para a qual qualquer grande mudança tende a representar uma ameaça ao status quo fragilizado. É por isso que essas pessoas tendem a ter atitudes mais conservadoras. Mas é claro que as coisas mudarão somente a partir do momento no qual haja uma participação mais ampla e profunda de todos os cidadãos.

swissinfo.ch: A eleição presidencial acaba sendo a mais discutida, mas as escolhas para o legislativo também são fundamentais. Como o senhor analisa o formato das campanhas e no que realmente contribuem para ajudar as pessoas a escolherem seus candidatos?

RR.: Sem dúvida, o foco das campanhas é para presidente. O presidente brasileiro é muito poderoso, comparando com outras democracias como França e Estados Unidos, e por isso fica ainda mais no centro das atenções. Como já mencionei, considero o peso dos veículos audiovisuais problemático, sem falar da qualidade das contribuições no horário gratuito e dos debates de TV quase esterilizados. Mas é muito simples criticar os formatos. O problema é mais fundamental. Os legislativos têm pouco poder, em particular no nível municipal e estadual, e por isso não recebem tanta atenção.

swissinfo.ch: O modelo político suíço poderia servir de exemplo para o brasileiro de alguma maneira, mesmo sendo países com diferenças tão grandes?

RR.: Apesar das diferenças óbvias entre a Suíça e o Brasil, os dois países têm constituições muito parecidas. São duas federações, por acaso ambas com 26 Estados – ou 26 cantões, no caso suíço. A autonomia dos municípios e dos estados é algo fundamental. As duas constituições preveem iniciativas populares e referendos, um fato que é raro no nível federal. Não há dúvida de que a Constituinte Brasileira se inspirou – entre outras fontes - na constituição Suíça. Mas enquanto os conceitos básicos são os mesmos, a concretização é bem distinta. E a meu ver, no caso brasileiro, com falhas importantes.

swissinfo.ch: Poderia exemplificar?

RR.: Pela Constituição, o Brasil é uma federação, mas na realidade temos uma centralização do poder muito grande. Em primeiro lugar, na presidência, depois, nos governadores. Os municípios são fracos e não usufruem a autonomia que deveriam ter em um regime federativo. Em parte, isso é devido à concentração das atividades econômicas e a subsequente arrecadação de impostos em grandes centros urbanos, deixando muitos outros municípios dependentes dos repasses estaduais e federais. Até um certo ponto, isto é inevitável. Existem também na Suíça municípios e cantões que dependem de repasses. Mas, me parece que no Brasil o desequilíbrio é grande demais. Vejo poucas ideias de como reverter este quadro. Todo mundo sempre olha para o presidente, em vez de tomar uma atitude de responsabilidade própria. Outro exemplo são os processos de democracia direta, como a iniciativa popular ou o referendo. As versões brasileiras desses mecanismos são pouco participativas e não permitem aos cidadãos aproveitar o potencial inovador e transformador que é inerente a eles.

swissinfo.ch: E como isso se complica no Brasil?

RR.: O resultado dessas distorções é uma desvantagem institucional que não é fácil para compensar. No fundo, leva a maioria a atitudes menos responsáveis, já que aparentemente somente o presidente ou o governador têm capacidade de avançar as questões. É obvio que assim os desafios complexos que o Brasil enfrenta nunca poderão ser resolvidos. É preciso a contribuição de cada um.

swissinfo.ch: Os recursos que os partidos recebem de empresas para as campanhas são alvo de muita polêmica. O senhor acredita em algum formato ideal para que as campanhas possam ser feitas sem que a máquina do governo sirva depois como uma moeda de troca?

RR.: Uma forma ideal não existe. O processo democrático implica certas intenções normativas, mas não anula o fato de que interesses distintos lutem pelo poder. Nessa luta são usadas armas de vários tipos: argumentos e dinheiro talvez sejam as mais importantes. A presença de dinheiro é inevitável e nem sempre necessariamente problemática. O estabelecimento de transparência sobre o financiamento de campanhas já é um progresso importante. Talvez seja necessário comunicar estes dados mais ativamente, por exemplo, durante o horário gratuito.

swissinfo.ch: Como é a situação na Suíça?

RR.: Na Suíça encontramos fatos quase curiosos. Não há nenhum regulamento sobre o financiamento de campanhas e partidos: não há limites, não há transparência, nada! Este problema é parcialmente sanado pela proibição de qualquer informação publicitária eleitoral no rádio e TV. E nenhum candidato pode veicular propaganda em rádio ou TV. Há anúncios nos jornais, panfletos enviados pelo correio e pela internet... Isso reduz bastante os custos, porque o que realmente encarece as campanhas são os programas de rádio e TV. A princípio acho isso uma solução genial, pois o que se vê na publicidade política na grande maioria não tem nenhum valor educativo. Custa muito e atrapalha o processo. Mas em um país como o Brasil, que tem uma população tão grande e com tantos analfabetos (ainda que funcionais), não poderia sobreviver sem rádio ou TV. Não acho que o modelo suíço seja viável para o Brasil.

Por Mirela Tavares, São Paulo,

Rolf Rauschenbach é Pós-Doutorando em Ciência Política (USP), Doutor em Ciência Política (Universität St. Gallen, Suíça), Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais (Universität St. Gallen), Bacharel em Economia e Administração (Universität St. Gallen), com intercâmbios em Economia e Administração (Université Catolique de Louvain-la-Neuve, Bélgia e New York University, EUA), em Ciência Política (Institut des études politiques de Paris, França) e em Filosofia (Universität Basel, Suiça). Atualmente é bolsista da FAPESP e pesquisador no NUPPs, trabalhando sobre os processos de democracia direta (plebiscito, referendo, iniciativa popular de lei) no Brasil.Fonte; NUZPPs (Núcleo de Pesquisas em Plíticas Públicas da Universidade de São Paulo).

Causa e consequência

Por Leandro Ruschel, outubro de 2014 (artigo publicado originalmente no Facebook)

Parece que nesse debate eleitoral falta o desenvolvimento da definição de causa e consequência.

Por exemplo, se a vida melhorou enquanto o PT estava na presidência isso não significa necessariamente que o partido tenha sido a causa dessa melhora.

Para conseguir chegar a uma resposta mais próxima da realidade, é preciso usar a lógica e os exemplos históricos.

O que é mais importante: estabilidade monetária, responsabilidade fiscal e eficiência de gestão ou simplesmente a distribuição de benefícios sociais sem a âncora no crescimento econômico, que vai durar até acabar os recursos do último ciclo de alta?

Alguém pode acreditar realmente que gestores como Lula, que brada aos quatro ventos que nunca leu um livro na vida, ou Dilma, quem mal consegue balbuciar algumas palavras desconexas num discurso podem realmente gerar riqueza para o país?

Será que pessoas que roubam e que deixam roubar, tratando corruptos como heróis podem trazer algo de bom verdadeiramente?

A semente do crescimento brasileiro foi plantada por FHC, que enfrentou crises ferozes sem gordura para queimar, sendo que Lula pegou a casa arrumada e surfou uma onda de prosperidade mundial como nunca vista antes. E teve como único mérito não fazer as merdas que prometeu fazer durante toda a vida (rasgar contratos, acabar com propriedade privada, etc).

Só aumentaram a distribuição de recursos porque havia esse ganho para distribuir. Mas o verdadeiro ganho vem com o crescimento econômico continuado, pois de outra forma a bonança será temporária, um sonho de verão.

O Brasil evoluiu APESAR do PT estar no governo. Tivesse sido um partido mais eficiente, teríamos evoluído muito mais!

A causa da evolução brasileira foi a reforma civilizante do governo FHC associada ao ciclo de alta da economia mundial, em especial da China que pagou caro para comprar nossa pauta de exportação. O surto distributivo do PT pode ter gerado um sistema inviável. Os sinais já estão aí: inflação em alta, estagnação econômica e falta de eficiência para concorrer no mundo globalizado.

Sem a compreensão de causa e consequência todo o desfile de números comparando as gestões não servem pra nada. Imaginem que um agricultor passe vários meses arando a terra, plantando as sementes e regando a plantação. Um pouco antes da colheita chega um grupo do MST e toma a fazenda, colhendo a melhor safra que a propriedade já produziu. No final, ainda fazem a propaganda que durante a sua gestão a colheita foi gigante, enquanto o proprietário anterior não produziu nada...

O diabo é que falta ao brasileiro médio a educação necessária para entender o que escrevo. E muitos "intelectuais" esquerdistas ainda vivem a ilusão marxista da exploração dos pobres pelos ricos, babando de excitação pelo aprofundamento da política distributiva. Não percebem que esse tipo de política levada ao extremo apenas garante a igualdade de pobreza para todos. Ou então percebem que nesse tipo de sociedade os únicos que garantem a riqueza são os membros e simpatizantes do partido.

Só existe uma forma de criar crescimento perpétuo de riqueza: esforço individual, trabalho duro e liberdade, num ambiente onde a justiça funciona para todos. Isso somado a meritocracia e ao gosto pela inovação. Todas as nações mais ricas do mundo tem essa base.

Creio que o país está numa encruzilhada. Aprofundamos uma visão retrógrada, medrosa e até mesmo criminosa com o PT ou temos uma chance de avançar em reformas modernizantes com o PSDB.

No final é isso. O problema é que a decisão terá consequências mais dramáticas para quem não está consciente dos desdobramentos da sua escolha. O dependente de bolsas que vota no PT com medo de perder a sua renda a verá sendo totalmente corroída pela inflação caso o partido ganhe.

E o trabalhador que acredita que seu salário aumentou por causa do PT pode até perder o emprego por conta da crise que já está aí.


Só há um ganhador certo no caso de vitória petista: os membros do partido e seus militantes, que mamam na farta teta do Estado brasileiro.

sábado, 18 de outubro de 2014

Distorção dos dados, inflação, ausência de metas e medições, falta de ‘portas de saída’ e insustentabilidade fiscal desconstróem programas sociais do governo

Por Sergio U. Dani, de Bremen, Alemanha

O sucesso dos programas sociais do governo atual está questionado, no contexto da crise de credibilidade pela qual passa o atual governo e, indiretamente, todo o país. Fica difícil acreditar em governantes que são capazes de fazer de tudo para se perpetuar no poder e enriquecer, inclusive mentir, manipular dados, roubar e corromper. 

A FAO-Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura trabalha com dados fornecidos pelos governos dos países-membros. Consulte atentamente os dados lançados no site da FAO: http://www.fao.org/hunger/en/  

Observa que o Brasil, em 2002, informou, para uma população de 177 milhões de habitantes, 19 milhões de pessoas subnutridas. Esse número de subnutridos, pelo mesmo site da FAO, representaria 10,7% da população brasileira, algo como uma em cada dez pessoas. 

No período 2006-2008, para um número total de habitantes não informado no site da FAO, havia menos de 5% da população subnutrida. 

O Censo Demográfico do IBGE de 2010 indicou pouco mais de 190 milhões de habitantes. 

Os números do IBGE, combinados com os números divulgados pela FAO sugerem que existem, no Brasil, cerca de 9,5 milhões de subnutridos. Essas são apenas inferências e meta-análises de dados. A realidade é um ponto de interrogação. 

Em setembro próximo passado, uma análise do TCU-Tribunal de Contas da Unição levantou sérias dúvidas sobre a credibilidade dos números dos programas sociais do governo. Distorção dos dados, inflação, ausência de metas e medições, falta de ‘portas de saída’ e insustentabilidade fiscal desconstróem o sucesso dos programas sociais de redução da miséria, fome e pobreza no Brasil (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/09/1513897-dados-sobre-reducao-da-pobreza-podem-estar-distorcidos-diz-tcu.shtml).