sábado, 17 de janeiro de 2015

Licença para matar

Em uma entrevista ao jornal suíço ‘Der kleine Bund’ dessa semana [*], o psicoanalista suíço Peter Passett esclareceu a natureza dos atos de violência como os ocorridos recentemente em Paris na sede do semanário ‘Charlie Hebdo’. 

Passett explica que a violência é uma parte importante de toda cultura que reprime os instintos violentos. Todo ser humano tem uma predisposição à violência. A prática da violência tem um aspecto lúdico e ao mesmo tempo existe uma inibição dessa prática. O tabu da matança entre os membros da mesma espécie existe em todo o mundo animal. 

No mundo da cultura, esse tabu é reforçado por normas que proíbem o homicídio. Mas, as mesmas instituições que ditam as normas também criam as exceções. 

As religiões são as principais fornecedoras das racionalizações que explicam porque em certos casos pode-se celebrar o homicídio e a violência. O Cristianismo não é diferente do Islam e de outras religiões.  Na Bíblia está escrito algo como: ‘eu não vim para lhes trazer a paz, senão a espada’. Este também é um aspecto do Cristianismo. 

As pessoas nas quais falta o efeito da repressão da violência e que encenam e celebram a violência, quase sempre apelam para alguma desculpa. As justificativas para seus atos são fornecidas pelas religiões e as ideologias políticas. Elas são racionalizações através das quais as pessoas buscam libertar-se da repressão e assim também da responsabilidade. Não importa se isso acontece em nome de uma religião ou de uma ideologia política. 

A matança de Paris não tem nada a ver com o Islam. Nos livros de todas as religiões existem passagens onde se incita à violência. Os cristãos justificaram as cruzadas com o Novo Testamento. Só no Budismo encontra-se um texto menos explícito com relação à prática da violência. Todas as religiões fornecem desculpas para legitimar as atividades violentas. Nas chamadas culturas cristãs, a religião perdeu esse significado central e cedeu lugar para as ideologias extremistas de ‘direita’ e ‘esquerda’. No final de contas, as ideologias servem ao mesmo propósito. A violência deve ser justificada, e como isso não pode acontecer a partir de dentro dos indivíduos, procura-se uma instância externa que permita isso. 

Passett não acredita que os matadores dos editores do ‘Charlie Hebdo’ tenham se sentido desrespeitados pelos caricaturistas. Os que realmente se sentem existencialmente feridos não atacam ou matam. Eles sofrem calados. Os autores da chacina não devem ser chamados de ‘lutadores’, senão de ‘criminosos’, e como tal não são melhores que qualquer outro criminoso. Ao se trazer o fundo religioso para a tona e entender isso como motivo, só se enobrece esses criminosos. 

A melhor receita contra a violência é o pensamento racional, mas até esse pensamento é relativamente fraco quando comparado às emoções.  O pensamento racional deixa-se facilmente apossar. O problema da elucidação é que ela quer trazer as pessoas à razão, mas essas sempre fazem mau-uso da elucidação para justificar suas paixões. O fino verniz de civilização pode quebrar a qualquer momento. De lá onde se ouve o grito de triunfo da razão e da tolerância o oposto não está longe. Todas as pessoas têm um profundo conhecimento do que é bom ou mau. O famoso experimento de Milgram mostrou que essa capacidade pode ser facilmente mutilada. Quando pessoas normais recebem a autorização para matar seus semelhantes, elas obedecem prontamente. 

A violência, mesmo quando facilitada a partir de uma fonte externa, vem mesmo de dentro da própria pessoa. Por isso é que as pessoas precisam domesticar a si próprias e a sua prontidão à violência. Isso é tarefa da cultura. 

Sempre existe uma oportunidade para praticar a violência. Quando europeus viajam para a Síria para se juntar ao chamado EI, isso não é outra coisa que uma oferta para a violência: aqui você pode ser um verdadeiro lutador, aqui tudo é permitido. Esse comportamento é legitimado por pseudo-explicações e interpretações baratas do mundo. A Legião Estrangeira também foi, em parte, uma instituição desse tipo, uma que dava licença para matar. 

Hoje o chamado ao Islam é usurpado como um lubrificante para a agressão. Mas, mesmo esses assassinos sabem que cometem atos indecentes e por isso precisam gritar: ‘Nós vingamos o profeta’. 

No final de contas, o que fica é a responsabilidade que ninguém pode tirar de outrem – nem a religião, nem a ideologia. Sempre fica algo de muito pessoal, se o indivíduo arca com suas responsabilidades ou não, e se ele está pronto ou não a se perguntar, em cada situação: eu devo? eu quero? eu posso? Aqui a educação desempenha um papel muito importante. Em vez de educar as crianças para obedecer, elas devem ser sempre orientadas que elas próprias devem fazer suas escolhas e arcar com as responsabilidades. Com isso não se conseguirá reprimir o instinto da violência. Trata-se simplesmente de civilizá-lo tanto quanto possível.
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[*] Gewalt hat etwas Lustvolles. Der Kleine Bund. Mittwoch, 14. Januar 2015.

To be or not to be, Charlie

Por P.M. Serrano Neves, postado no Facebook em 12.01.2015

Os franceses que tanto contribuiram para a teoria do ''abuso de direito'' surpreendem-me com uma hipótese híbrida de liberdade de expressão com liberdade de imprensa que sustentam não ter limites.
Meu raciocínio cartesiano prejudica que possa compreender tal construção, à vista de que o Universo e a Natureza não apresentam nenhum caso de liberdade cujo exercício não esteja sujeito ao preço da temeridade quando limites são ultrapassados.

O satélite ...que pousou em um cometa - evento recente - obedeceu estritamente a todos os limites impostos pela regência cósmica.

Primeiro é preciso perceber que a immprensa é tão mais livre quanto mais tenha dinheiro para colocar sua mídia em circulação e tão menos livre quanto tal dinheiro carregue uma ideologia. Estes são os limites funcionais.

Segundo, é preciso perceber que expressão é o ato de dar a conhecer alguma coisa por orientação de alguma vontade.

Terceiro, é preciso concluir sobre a conformidade da coisa com a vontade e com a expressão.

Quarto, é preciso não se render à ''impressão que isto me causa'', o que é mais comum do que se imagina, dada a variação do corpo de conhecimentos e a diversidade das constantes de deformação da percepção.

E para justificativa do que pensamos e fazemos invocamos a liberdade de pensamento e expressão, e as contrariedades e contradições ficam por conta do ''somos humanos''. Este é ponto: somos humanos, tão humanos quanto os conturbados cenários que conseguimos produzir por todos os cantos do Planeta. Ainda não sabemos como ser melhores do que somos e, a cada dia, lenta e gradualmente, ir reconhecendo que as liberdades e direitos que reivindicamos exercitar são comuns de todos e que o direito de um acaba onde começa o direito de outro. Ainda não cremos que a diminuição do mal em um grau apenas constitua um abrandamento sensível do calor gerado pelo atrito nas relações humanas. E se ainda não sabemos nem cremos é porque não podemos, com o conhecimento atual, resolver as complexas equações do relacionamento humano.

O satélite pousou no cometa mas continuamos tão estúpidos quanto o deslumbramento com os feitos da inteligência nos cega em relação à existência de um humano próximo igual a cada um de nós mesmos, e tantos humanos próximos quantos devam existir para que a compreensão da existência da humanidade como uma entidade seja alcançado.

Je suis que nous sommes tous.

Ubuntu.

domingo, 30 de novembro de 2014

Gasto brasileiro com ciência é muito pouco eficiente, diz Nature

Financial efficiency - Dividing a country's weighted fractional count (WFC) by its gross domestic expenditure on research and development (GERD, per US$100,000, by purchasing power parity) gives a measure of its financial efficiency. So the larger the square, the higher the Nature Index output (as measured by WFC) per dollar invested. (Only countries with a WFC>10 and GERD data from 2008 or later are included. Source: United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO).)











Ref.: Global overview. Nature 515, S56–S57 doi:10.1038/515S56a

Leia também:
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2014/11/1549183-gasto-brasileiro-com-ciencia-e-muito-pouco-eficiente-diz-nature.shtml

domingo, 9 de novembro de 2014

Estamos acabando com o país

Gustavo Ioschpe


Reunião de pais e mestres: é nela que temos de exigir uma escola sem
doutrinação marxista para nossos filhos (Gilberto Tadday/VEJA)

Há algumas semanas, dei uma palestra em um evento sobre educação, organizado por uma grande empresa e sediado em uma escola. Havia muitos educadores e alunos na plateia. Compartilhei alguns dos dados preocupantes sobre o fracasso do nosso sistema educacional. Expus minha oposição ao plano — agora consagrado em lei — de investirmos 10% do PIB em educação, notando que o único país que investe nesses patamares é Cuba. (Não porque aprecie sobremodo a educação, mas porque não tem PIB: qualquer meia dúzia de vinténs já dá 10% do PIB cubano...)
Depois da minha fala, vieram as perguntas do público. Sempre que há professores na plateia, estas perguntas se repetem: não é muito simplista/reducionista/alienado falar apenas em qualidade do ensino através do domínio dos conhecimentos de linguagem, matemática e ciências medidos por meio de exames como a Prova Brasil, o Enem e o Pisa? A função da educação não vai muito além disso? Não seria formar o cidadão crítico e consciente, engajado na construção de um país mais justo? Respondi o que sempre respondo nesses casos: a educação brasileira está tão mal — incapaz até mesmo de alfabetizar seus alunos ou ensinar-lhes as operações matemáticas básicas — que podemos gerar um consenso abarcando desde os stalinistas do PSTU até o neoliberal mais empedernido. Quer você deseje gerar o próximo Che Guevara, quer um operário preparado apenas para trabalhar numa linha de montagem, ambos precisam ser alfabetizados e dominar as operações matemáticas básicas. Então vamos primeiro focar a criação de um sistema educacional que garanta a 100% de seus alunos o direito de aprender pelo menos essas competências básicas, e deixemos as discussões ideológicas para outras áreas e outros momentos. Para mim, isso tudo é de uma obviedade mais do que ululante.
Qual não foi a minha surpresa quando, ao terminar, fui interpelado por uma meia dúzia de adolescentes, na faixa dos 15 anos, alunos daquela escola, dizendo-se indignados com meu desprezo por milênios de linguagem oral, meu menosprezo pelos analfabetos (“Então o senhor acha que é preciso ler para ter conhecimento?!”) e minhas críticas ao “grande” modelo cubano. Sim, sim, tem bastante gente ainda pensando assim em 2014, não estou brincando! Caiu o Muro de Berlim, e eles ainda estão sonhando em descer a Sierra Maestra. Você deve estar pensando que essa escola era da rede pública de alguma biboca do nosso interior profundo, administrada por uma prefeitura de partido socialista, certo? Pois é, eis a minha surpresa: essa escola, senhores e senhoras, está no Rio de Janeiro, na divisa entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, e — esta é a melhor parte — pertence ao Sesc. Sim, o Serviço Social do Comércio, mantido pelos empresários e funcionários das áreas de comércio e serviço através de impostos cobrados na folha salarial. Longe de ser exceção, essa dinâmica é a regra: escolas e universidades de entidades privadas, algumas inclusive com fins lucrativos, estão entupindo o cérebro de seus alunos com a mais rasteira e ignóbil doutrinação política marxista. Depois, quando esses alunos se tornam adultos e passam a comandar o país, os donos e diretores dessas escolas e universidades passam anos a fio reclamando (com razão) do intervencionismo estatal e do viés antiempresarial dos líderes... que eles mesmos formaram!
Não acredito que esse tiro no pé seja intencional. É só miopia ou visão de curto prazo. Nas universidades, as áreas de pedagogia e licenciaturas são muito desprestigiadas, e acabam se tornando incompetentes. Formam maus professores, mas ninguém se importa, porque, como muito poucos prefeitos ou governadores são cobrados pela qualidade do ensino que oferecem, mesmo o mau professor não terá muita dificuldade de se encaixar no mercado, desde que tenha o diploma. Como os cursos não precisam ter qualidade, o jeito de reter aquele aluno é dizendo-lhe o que ele gosta de ouvir. De preferência, algo fácil de entender. Como esse é um público muito idealista, que já vem doutrinado do ensino médio, e como os pedagogos responsáveis por esses cursos também estão, na maioria dos casos, imbuídos de um sentido de missão revolucionária, o que você acha que esses cursos fazem? Trilham o caminho difícil de transmitir o domínio da didática e da matéria a ser ensinada ou optam por falar do papel revolucionário do professor, da missão grandiloquente da formação do cidadão crítico etc.? Sim, eles optam pelo caminho do ensino raso recheado por profundo doutrinamento. E assim se formam os professores que formarão as futuras gerações.
Lendo estas linhas você deve estar com um misto de compaixão e desprezo pelos proprietários de nossas universidades, investindo hoje na criação do seu opositor de amanhã. Mas eles não são os maiores culpados pela situação que vivemos. Sabe quem é? Você. Sim, você, que tem recursos para ler esta revista e, provavelmente, para pôr seu filho em uma escola particular. Você que faz parte da elite financeira e intelectual do país, que representa a sua liderança. Pois eu pergunto a você: qual foi a última vez que leu um livro didático de história ou geografia adotado pela escola do seu filho? Se você for como a maioria dos pais, deve fazer muito tempo. Você sabe que seus filhos estão ouvindo nas escolas diatribes contra o capitalismo e a burguesia brasileira (leia-se: você) e elogios ao modelo cubano e outros lixos socialistas? Provavelmente não sabia. É provável que só esteja preocupado com que seu filho entre em uma boa universidade, preferencialmente pública, em que o doutrinamento rastaquera praticado na escola será substituído por uma panfletagem esquerdista travestida de intelectualidade. Ou talvez até saiba o que está se passando mas não tenha vontade suficiente para debater com os professores e diretores, mantidos pela sua mensalidade, o lixo mental que seu filho recebe diariamente. Você que se preocupa com a saúde física do seu filho a ponto de obrigá-lo a comer arroz integral e tomar suco verde não dispõe da mesma energia e entusiasmo para fazer com que seu cérebro seja preservado dos detritos descarregados diariamente pela escola que você financia.
Talvez acredite que não importa o que seu filho ouve na escola: você corrige os desvios de caminho em casa. E pode ser até que tenha razão. Mas os 83% de alunos que estudam em escolas públicas têm pais cujo nível de instrução é muitas vezes insuficiente até para ajudar na alfabetização do filho. Certamente não conseguirão fazer o mesmo nem saberão que seu filho está sendo vitimado pela historiografia marxista, ou mesmo que há outras historiografias possíveis.
O resultado das últimas eleições mostra que não é possível construir um país nos três meses que antecedem a votação. Mostra que, sim, é ótimo que a nossa elite ganhe muito dinheiro, progrida e tenha condições de passar um tempo em Miami, Paris ou onde bem lhe aprouver, mas que só isso não basta: precisamos de uma elite empenhada em alterar a realidade do país, não em fugir dela. O Brasil está criando pessoas que desconfiam da democracia, dos valores republicanos, de sua própria capacidade empreendedora. Se as lideranças do país continuarem se abstendo da discussão que mais importa — a de valores, de identidade, de aspirações nacionais —, continuaremos colhendo atraso e frustração. Não se constrói um país desenvolvido sem elites. Esse debate é indelegável.
Já passou da hora de termos uma escola apolítica, sem doutrinação, que consiga fazer com que nossos alunos pensem e tenham os instrumentos para pôr de pé seus sonhos de vida. Não podemos nos furtar desse debate nem adiá-lo. Ele começa hoje, na sua sala de jantar, na escola de seus filhos. Aproveite essa liberdade enquanto a temos.

sábado, 8 de novembro de 2014

Conheça soluções para a crise da água em 6 cidades do mundo

Paula Adamo Idoeta e Rafael Barifouse

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/11/141105_crise_agua_6cidades_pai

A crise da água no sudeste brasileiro, que afeta milhões de pessoas, desperta discussões sobre mudanças climáticas, consumo, investimentos e alternativas de abastecimento. Diversas cidades do mundo também enfrentam ou enfrentaram desafios semelhantes, envolvendo seca, desperdício e excesso de consumo. A experiência delas pode servir de lição para São Paulo e as demais cidades brasileiras que sofrem com a falta d’água? A BBC Brasil identificou seis cidades que tentam solucionar suas crises de abastecimento e perguntou ao Instituto Socioambiental (ISA) até que ponto as medidas se aplicariam à realidade paulista.

Pequim (China): transposição da água
A China está entre os 13 países listados pela ONU com grave falta d’água: com 21% da população mundial, o país tem apenas 6% da água potável do planeta.
Cerca de 400 cidades enfrentam obstáculos de abastecimento, e Pequim é uma delas: com uma população crescente, a capital já consome mais água do que tem disponível em seus reservatórios.
Além disso, diversos rios chineses secaram recentemente em decorrência de secas prolongadas, crescimento populacional, poluição e expansão industrial.
Para enfrentar a questão, a companhia de água de Pequim está apostando em um projeto multibilionário para redirecionar rios, o Projeto de Desvio de Água Sul-Norte, cuja primeira etapa deve ser concluída neste ano.
O objetivo é mover bilhões de metros cúbicos de água do sul ao norte (mais árido) anualmente ao longo de uma distância superior à que separa o Oiapoque do Chuí (extremos do Brasil), a um custo que deve superar os US$ 60 bilhões. Seria necessária a construção de 2,5 mil km de canais.
É viável em São Paulo?
O governador paulista, Geraldo Alckmin, propôs uma obra de transposição para interligar o Sistema Cantareira à bacia do rio Paraíba do Sul - proposta polêmica, já que este último é a principal fonte de abastecimento do Estado do Rio de Janeiro, mas vista como "viável" pela Agência Nacional de Águas (ANA). O custo estimado é de R$ 500 milhões.
No entanto, para Marussia Whately, consultora em recurso hídricos do ISA (Instituto Socioambiental), São Paulo estaria avançando sobre outras fontes de água sem cuidar da água que tem disponível atualmente.
"Vamos investir em grandes obras antes de pensar na gestão das perdas de água, no consumo e na degradação das fontes de água atuais?", questiona.

Perth (Austrália): dessalinização
Perth é a "cidade mais seca" entre as metrópoles da Austrália. Segundo a presidente da Western Australia Water Corporation, Sue Murphy, as mudanças climáticas ocorreram mais rápido e antes do que era esperado no oeste do país. "Nos últimos 15 anos, a água de nossos reservatórios foi reduzida para um sexto do que havia antes", disse em junho.
A cidade construiu duas grandes estações para remover o sal da água coletada no Oceano Índico e torná-la potável. Hoje, Perth obtém metade de sua água potável a partir do mar. Mas os ambientalistas criticam o processo por ser caro e demandar muita energia. Os moradores sentiram o impacto em suas contas de água, que dobraram de valor nos últimos anos.
A cidade também está fazendo experimentos com o sistema Gnangara, sua maior fonte hídrica subterrânea. Por uma década, Perth injetou nos aquíferos subterrâneos a água que foi usada pela população, já tratada. A água é filtrada naturalmente pelo solo arenoso e depois extraída para ser consumida pela população ou usada na irrigação agrícola. O teste foi considerado bem-sucedido, e um programa oficial foi estabelecido – sua meta é obter desta forma 7 bilhões de litros por ano.
"Com um clima mais seco, precisamos ser menos dependentes de chuva, por isso apoiamos estes projetos", disse Mia Davies, ministra de Água e Florestas do Leste da Austrália. Ao mesmo tempo, houve uma campanha pelo uso racional da água, o que fez com que a demanda por água hoje seja 8% menor do que em 2003, apesar de a população ter crescido mais de 30%.
É viável em São Paulo?
A dessalinização não seria uma opção coerente, diz Whately, do ISA, já que São Paulo não é cidade costeira e o Brasil tem um enorme patrimônio de água doce. Ao mesmo tempo, já se fala em recorrer ao uso emergencial de água usada: o governo paulista anunciou nesta semana planos de construir uma Estação de Produção de Água de Reúso na zona sul de São Paulo.

Nova York (EUA): proteção de mananciais
Uma das maiores cidades do mundo, Nova York iniciou nos anos 1990 um amplo programa de proteção aos mananciais de água, para prevenir a poluição nessas nascentes e, assim, evitar gastos volumosos com tratamento ou busca de novas fontes de abastecimento.
O projeto incluiu aquisição de terras pelo governo nas nascentes de água, com o objetivo de proteger sua vegetação e garantir que os lençóis freáticos continuassem a ser alimentados; assistência financeira a comunidades rurais nessa região em troca de cuidados com o meio ambiente; e mitigação da poluição nos mananciais. Com isso, a cidade conseguiu ampliar em décadas a vida útil de seus mananciais.
O programa também envolveu campanhas pela redução do consumo. Dados oficiais apontam que o consumo per capita da cidade era de 204,1 galões de água por dia em 1991 e caiu para 125,8 galões/dia em 2009.
É viável em São Paulo?
Para Whately, trata-se da opção mais adequada para a realidade paulista: "A ideia (em Nova York) foi pensar o recurso que eles tinham disponíveis e cuidar deles, em vez de investir em obras", diz.

Zaragoza (Espanha): conscientização e metas
Secas severas nos anos 1990 deixaram milhões de espanhóis temporariamente sem água. Mas um relatório da Comissão Europeia aponta que o maior problema no país não costuma ser a falta de chuvas, e sim "uma cultura de desperdício de água".
A cidade de Zaragoza, no norte, encarou o problema com uma ampla campanha de conscientização em escolas, espaços públicos e imprensa pelo uso eficiente da água e o estabelecimento de metas de redução de consumo. Dos cerca de 700 mil habitantes, 30 mil se comprometeram formalmente a gastar menos água.
A estratégia incluiu incentivos para a compra de aparelhos domésticos econômicos (chuveiros, vasos sanitários, torneiras e máquinas de lavar louça eficientes, cujas vendas aumentaram em 15%); melhoria no uso da água em edifícios e espaços públicos, como parques e jardins; e cuidados para evitar vazamentos no sistema.
A meta estabelecida em 1997, de cortar o consumo doméstico de água em mais de 1 bilhão de litros água em um ano, foi atingida. Antes da campanha, diz a Comissão Europeia, apenas um terço das casas de Zaragoza praticava medidas de economia de água; ao final da campanha, eram dois terços. O consumo total caiu mesmo com o aumento no número de habitantes.
"O projeto mostrou que é possível lidar com a falta d’água em um ambiente urbano usando uma abordagem economicamente eficiente, rápida e ecológica", diz o 2030 Water Resources Group, consórcio que reúne ONGs, governos, ONU e empresas em busca de soluções ao uso da água no mundo.
É viável em São Paulo?
Não apenas viável como necessário, diz Whaterly, do ISA. "Se houvesse, por exemplo, um amplo programa de incentivos à aquisição de hidrômetros individuais (em vez de coletivos) nos edifícios de São Paulo, haveria uma economia brutal de água", opina. "Também são necessários incentivos à construção de cisternas e sistemas individuais de reúso da água."
Whately opina também que, ante a urgência da situação, a cidade precisa fixar metas e incentivos à redução do consumo mais duras do que as promovidas atualmente pela Sabesp - por exemplo, forçando consumidores maiores a cortar mais seu gasto de água e debatendo a imposição de multas a quem aumentou o consumo em plena estiagem.

Cidade do México (México): novos aquíferos
Em junho, o presidente mexicano Enrique Peña Nieto afirmou que 35 milhões de habitantes do país têm pouca disponibilidade de água, tanto em qualidade como em quantidade.
Essa escassez é grave na própria capital, a Cidade do México, onde uma combinação de fatores – como grande concentração populacional, esgotamento de rios e tratamento insuficiente da água devolvida ao solo – causa extrema preocupação.
Em 2009, partes da cidade foram submetidas a racionamento de água após uma forte seca; e autoridades ouvidas pela imprensa local afirmam que, no ritmo atual, a cidade pode não ter água o suficiente em 2030.
Uma aposta da Cidade do México são aquíferos identificados no ano passado, cuja viabilidade está sendo estudada. Estão sendo perfurados poços para não apenas confirmar a existência das fontes subterrâneas de água, mas também avaliar sua qualidade para consumo humano.
Até 2016, as autoridades dizem que será possível saber se os aquíferos serão ou não uma alternativa de abastecimento para a megalópole. O problema, dizem, é que a perfuração, a 2 km de profundidade, deve sair muito mais cara do que perfurações de fontes mais próximas à superfície.
E muitos dizem que, além de buscar novas fontes, a cidade precisa aprender a evitar os desperdícios do sistema e a utilizar a água atual de forma mais eficiente.
É viável em São Paulo?
Para Whately, o uso de água subterrânea já é uma realidade para diversas cidades brasileiras, mas, por serem importantes reservas de água para o futuro, seu uso deve ser racional. "Ainda temos pouco conhecimento a respeito de nossos aquíferos. Eles precisam ser melhor estudados e mais bem cuidados – por exemplo, há locais em que o uso de agrotóxicos (no solo) pode prejudicá-los."

Cidado do Cabo (África do Sul): guerra ao desperdício
Khayelitsha, a 20 km da Cidade do Cabo, é uma das maiores "townships" (como são chamadas as comunidades carentes sul-africanas) do país, com 450 mil habitantes. No início dos anos 2000, uma investigação descobriu que cerca de uma piscina olímpica era perdida por hora por causa de vazamentos em sua rede de água.
A principal fonte de desperdício eram os encanamentos domésticos, muitos dos quais deficientes e incapazes de resistir alta à pressão de bombeamento da água.
Com isso, aumentavam o consumo de água e também a inadimplência, já que muitas pessoas não conseguiam pagar as contas mais caras. Além disso, a Cidade do Cabo vive sob constante ameaça de falta d’água.
Um projeto-piloto de US$ 700 mil, iniciado em 2001, funcionou em duas frentes: a reforma de encanamentos ruins e a redução da pressão da água fornecida ao bairro, para evitar os vazamentos.
Segundo um relatório do governo da Cidade do Cabo, o projeto custou menos de US$ 1 milhão e o investimento foi recuperado em menos de seis meses.
Com a iniciativa, aliada a uma campanha de conscientização para evitar desperdícios, Khayelitsha conseguiu economizar 9 milhões de metros cúbicos de água por ano, equivalente a US$ 5 milhões, segundo o consórcio 2030 Water Resources.
É viável em São Paulo?
Para Whately, as perdas de água também são um "problema enorme" em São Paulo. "Quase um terço da água é perdida (no caminho ao consumidor), o que equivale a todo o volume do Guarapiranga e Alto Tietê juntos", diz. "Em alguns casos, encanamentos antigos podem contribuir para isso. Seria necessário mapear, com a ajuda das prefeituras, áreas onde há grandes perdas de água e identificar os motivos."

domingo, 2 de novembro de 2014

Os programas da aceleração do caos

Berna, 02.11.2014, pelo Editor.

Dizer que um país como o Brasil precisa de programas assistencialistas para atender 25% da população é propagar um mito. Um programa assistencialista dessa proporção só se justifica em situações de catástrofes naturais, epidemias e guerras, e ainda assim por um período limitado. O de que o Brasil realmente precisa é do ‘PROGRAMA VERGONHA NA CARA’ para educar e capacitar o povo para as atividades de produção e conservação. Os programas assistencialistas, o estímulo ao consumismo, o mercantilismo e a corrupção consumiram os recursos naturais e financeiros da nação. O resultado não poderia ser outro: os economistas prognosticam um crescimento econômico de 0,3% para 2014. Apesar da ciranda de endividamento dos anos passados, a economia deve ser impulsionada por novas dívidas. Em setembro deste ano, o volume de crédito estava aumentado de 11,7% em relação ao ano passado. As dívidas das famílias e das empresas aumentaram de mais de 10 vezes entre o início de 2000 e o final de 2013, alcançando 1,5 trilhões de dólares. Segundo os dados do Banco Central, as empresas estão pagando, em média, juros de 22,8%. Os juros pagos pelos consumidores chegam a 31,9%, em média. Com a elevação dos juros anunciada 3 dias após a estranha re-eleição da petista Dilma Rousseff, a conjuntura deverá piorar, visto que os bancos poderão repassar os juros altos para os clientes. Nunca os setores improdutivos e extrativos como bancos e mineradoras lucraram tanto, e os consumidores se endividaram tanto, quanto nos últimos 12 anos de governo petista. A má-gestão da coisa pública destrói o ambiente, faz aumentar o custo de vida e a concentração de renda, agrava a violência, a dependência e a escravização das pessoas, e aumenta a dependência do país. Para cobrir o buraco do déficit financeiro, o Brasil precisa buscar dinheiro fora, ou emitir dinheiro...

Milhares de manifestantes em São Paulo e Brasília cobram auditoria na eleição presidencial de 2014 e pedem o impeachment de Dilma

https://br.noticias.yahoo.com/protesto-dilma-fecha-parte-av-paulista-180800748.html

http://m.oglobo.globo.com/brasil/manifestantes-fazem-protesto-contra-reeleicao-de-dilma-em-sao-paulo-brasilia-14436719

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/protesto-em-sp-como-a-imprensa-ridiculariza-e-distorce-um-protesto-simplesmente-por-nao-concordar-com-ele-em-horas-assim-a-isencao-e-a-objetividade-que-se-danem/